A Escola dos Deuses

Há tempos não lia um livro tão instigante, desafiador e com tanto poder de cura e transformação  pessoal!

O autor, o economista e sociólogo italiano, Stefano Elio D’Anna, reitor da European School of  Economics  – ESE, narra seus encontros com o Dreamer, um Ser atemporal, que lhe transmite os  ensinamentos que  estiveram presentes em todas as escolas iniciáticas, desde os tempos mais  remotos. A diferença,  entretanto, é a forma direta, objetiva, prática e até certo ponto, crua, como  tais conceitos são tratados e  transmitidos!

O Dreamer aponta, sem subterfúgios, toda a tragédia humana – dores, frustrações, derrotas, guerras,  sofrimento, infelicidades, doenças e até mesmo a morte – como sendo consequência das nossas  crenças,  nossas (in)verdades interiores, das falsas concepções que nos foram impostas e que jamais  questionamos, da nossa descrença em nós mesmos e claro, na nossa inconsciência. Em dado  momento  ele afirma: “O mundo é assim porque você é assim”!

Passo a passo, com exemplos do dia a dia, não só todo o drama humano vai se desenhando, mas, também, por contraposição, as soluções vão sendo, didática e gradativamente, oferecidas de forma clara e inquestionável.

O livro em certos momentos chega a ser dolorido, tal a sua objetividade e a ênfase que dá à nossa auto responsabilidade pelos nossos infortúnios, mas, ao mesmo tempo, a beleza, profundidade e simplicidade dos ensinamentos é comovente, bem como entusiasmante a vontade que dá[i] de coloca-los em prática imediatamente.

Este é um livro para sempre!!


[i] ProLibera  Editora, 2007

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A DOÇURA

Mas uma vez, valho-me do excelente resumo que minha querida amiga CARLA RUSSO fez do livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do filósofo Frances Comte-Sponville.

Dentre as 18 virtudes mencionadas no livro, escolhi A Doçura, uma virtude que nós homens temos dentro de nós bem escondida e  “trancada a sete chaves”, temerosos que somos de externá-la. Penso que chegou o momento de demonstrá-la, sem medo e sem o receio (ilusório) das conseqüências, pois o mundo que desejamos e sonhamos para nós e nossos filhos depende, fundamentalmente, da nossa coragem de colocá-la em prática.

 

A DOÇURA

A doçura é uma virtude feminina. É por isso, talvez, que ela agrada, sobretudo, os homens.

Poderão objetar-me  que as virtudes não têm sexo, o que é verdade. Mas isso não nos dispensa de o ter, e o sexo marca todos os nossos gestos, todos os nossos sentimentos e até as nossas virtudes. A virilidade, não é uma virtude. Mas há uma maneira mais ou menos viril, ou mais ou menos feminina de ser virtuoso. Nascemos mulher ou homem, depois nos tornamos o que somos. A virilidade não é nem uma virtude nem uma falta. Mas é uma força, assim como a feminilidade é uma riqueza (inclusive nos homens), e uma força também, mas diferente. Tudo em nós é sexuado – salvo a verdade. Que diferença é mais rica e mais desejável?

O homem só é salvo do pior, quase sempre, pela parte de feminilidade que traz em si.

O que a doçura tem de feminino é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera. A doçura é antes de mais nada uma paz, real ou desejada: é o contrário da guerra, da crueldade, da brutalidade, da agressividade, da violência… Paz interior, e a única que é uma virtude. Muitas vezes permeada de angústia e de sofrimento, às vezes iluminada de alegria e de gratidão, mas sempre desprovida de ódio, de dureza, de insensibilidade.

É amor em estado de paz, mesmo na guerra, tanto mais forte quando é aguerrido, tanto mais doce. A agressividade é uma fraqueza, a cólera é uma fraqueza,a própria violência quando já não é dominada, é uma fraqueza. E o que pode dominar a violência, a cólera, a agressividade, senão a doçura? A doçura é uma força, por isso é uma virtude: é força em estado de paz, força tranquila e doce, cheia de paciência e de mansuetude. Veja-se Cristo ou Buda, com todos. A doçura é o que mais se parece com o amor, sim, mais ainda que a generosidade, mais ainda que a compaixão. A compaixão sofre com o sofrimento do outro; a doçura se recusa a produzi-lo ou a aumentá-lo. A generosidade quer fazer bem ao outro; a doçura se recusa a lhe fazer mal. Quantas generosidades importunas, porém, quantas boas ações invasoras, esmagadoras, brutais, que um pouco de doçura teria tornado mais leves e mais amáveis?

Notável fórmula de Pavese: “Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza, sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.”

A doçura submete-se ao real, à vida, ao mais ou menos do cotidiano: virtude de flexibilidade, de paciência, de devoção, de adaptabilidade. A humanidade não inventa a doçura. Mas a cultiva, mas se alimenta dela, e é isso que torna a humanidade mais humana. É a recusa a fazer sofrer, a destruir, a devastar. É respeito, proteção, benevolência.

“Faz teu bem com o menor mal possível ao outro.” Essa máxima da doçura, menos elevada do que a da caridade e menos exigente, é também mais acessível, por isso mais útil de fato, e mais necessária. Podemos viver sem caridade, toda a história da humanidade o prova. Mas sem um mínimo de doçura, não.

Os gregos, em especial os atenienses, gabavam-se de ter levado a doçura ao mundo. É que viam na doçura o contrário da barbárie e, portanto, um sinônimo aproximado da civilização. O que é a doçura (praotés) para um grego antigo?

No nível mais modesto, a doçura designa a gentileza das maneiras, a benevolência para com o outro. Mas ela pode intervir num contexto muito mais nobre. Manifestando-se em relação aos infortunados, ela torna-se próxima da generosidade ou da bondade; em relação aos culpados, torna-se indulgência e compreensão; em relação aos desconhecidos, torna-se humanidade e quase caridade. Na vida política, ela pode ser tolerância, clemência, conforme se trate das relações com cidadãos, com súditos ou com vencidos.

Na origem desses diversos valores está, porém, uma mesma disposição a acolher o outro como alguém a quem queremos bem – pelo menos em toda a medida em que podemos fazê-lo sem faltar com algum outro dever. E o fato é que os gregos tiveram o sentimento dessa unidade, pois todos esses valores tão diversos podem, ocasionalmente, ser designados pela palavra praos.

Virtude feminina, graças à qual – e só a ela – a humanidade é humana.

A TEMPERANÇA

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Anos atrás, o filósofo francês André Comte-Sponville escreveu um livro interessantíssimo sobre as  Virtudes, chamado: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes.

No livro, o autor afirma com sabedoria que precisamos conhecer e praticar as Virtudes, para “…  nos  tornarmos mais humanos, mais fortes, mais doces e, principalmente, mestres de nós mesmos…”

Entre as 18 Virtudes descritas e comentadas no livro uma, em particular, chamou minha atenção  até  porque, sinceramente, não conhecia seu significado – A Temperança.

Para minha sorte, felicidade, e esclarecimento, uma querida amiga minha, CARLA RUSSO, fez uma  excelente síntese desta Virtude, a partir do livro de André Sponville, que agora divido com todos.

 

A TEMPERANÇA

Não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar o menos possível. Isso não seria virtude, mas  tristeza, não temperança, mas ascetismo, não moderação mas impotência. Spinoza tão bem diz o essencial: “Certamente apenas uma feroz e triste superstição proíbe ter prazeres. Com efeito, o que é mais conveniente para aplacar a fome e a sede do que banir a melancolia? Esta a minha regra, esta a minha convicção. Nenhuma divindade, ninguém, a não ser um invejoso, pode ter prazer com a minha impotência e a minha dor, ninguém toma por virtude nossas lágrimas, nossos soluços, nosso temor e outros sinais de impotência interior. Ao contrário, quanto maior a alegria que nos afeta, quanto maior a perfeição à qual chegamos, mais é necessário participar da natureza divina. Portanto, é próprio de um homem sábio usar as coisas e ter nisso o maior prazer possível (sem chegar ao fastio, o que não é mais ter prazer).” A temperança situa-se quase toda nesse parêntese. É o contrário do fastio, ou o que leva a ele; não se trata de desfrutar menos, mas de desfrutar melhor.

A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. “É próprio de um homem sábio, mandar servir em sua refeição e para a reparação de suas forças alimentos e bebidas agradáveis ingeridos em quantidade moderada, como também perfumes, o adorno das plantas verdejantes, os adereços, a música, os jogos que exercitam o corpo, os espetáculos e outras coisas da mesma sorte, de que cada um pode fazer uso sem prejuízo para o outro.”

A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade. Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber, quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres, porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil? Claro que não. É possível? Nem sempre, nem para qualquer um. É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência: ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico. Que infelicidade suportar seu corpo! Que felicidade desfrutá-lo e exercê-lo!

A temperança é um meio para a independência, assim como esta é um meio para a felicidade. Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento.

A temperança – como a prudência e como todas as virtudes, pertence, talvez, à arte de desfrutar; é um trabalho do desejo sobre si mesmo. Ela não visa superar nossos limites, mas respeitá-los. Pobre Don Juan, que necessita de tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que precisa comer tanto!

Mas quem sabe se contentar com o necessário? Quem sabe apreciar o supérfluo apenas quando este se apresenta? Somente o sábio, talvez. A temperança intensifica seu prazer, quando o prazer está presente, e faz as vezes deste, quando não está. Que prazer estar vivo! Que prazer não carecer de nada! Que prazer ser senhor de seus prazeres! O sábio epicurista pratica a cultura intensiva – em vez de extensiva – de suas volúpias. O melhor, não o mais, é o que o atrai e que basta à sua felicidade. Ele vive com o coração “contente de pouco”. Aquele a quem a vida basta, de que poderia carecer?

São Francisco de Assis redescobrirá esse segredo, talvez, de uma pobreza feliz. Mas a lição vale, sobretudo, para nossas sociedades de abundância, nas quais se morre e se sofre com maior frequência por intemperança do que por fome ou ascetismo. A temperança tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também, os mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar. Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los, mas no máximo, e tanto quanto possível, controlá-los, de regrá-los, de mantê-los em equilíbrio, em harmonia ou em paz.

A temperança é uma regulação voluntária da pulsão de vida, uma afirmação sadia de nosso poder de existir, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites.

A temperança não é um sentimento, é um poder, isto é, uma virtude.

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Meia Noite em Paris – de Woody Allen

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Com Meia Noite em Paris, Woody Allen retoma à sua tradição de fazer grandes filmes, tais como    Match  Point, de 2005. Neste novo trabalho, Allen demonstra toda sua criatividade, como, aliás, já  havia feito  em  A Rosa Púrpura do Cairo, ainda que  alguns possam encontrar alguma semelhança  com De Volta para  o Futuro,  num estilo “art déco”.

Purismos à parte, trata-se de um filme fascinante, com diálogos deliciosos, uma divertida crítica  ao  estilo  americano mais frívolo, consumista e desprovido de qualquer verniz de cultura e,  especialmente,  uma  declaração de amor que o Alter ego do diretor, o deslumbrado Gil Pender, faz  à Paris dos anos 20  do  século passado, para onde todos acorriam e aonde tudo acontecia.

A grande mensagem do filme, na minha opinião, está em mostrar a inutilidade e inconseqüência de  se  buscar preenchimento, satisfação e a própria felicidade, fora do tempo presente. O presente é o  único    lugar onde podemos estar e encontrarmos a nós mesmo e podemos fazer isto sem negar ou  esquecer o  passado. Woody Allen mostra isto com muita sensibilidade e beleza. Imperdível!

 

Dica: Além da Vida

O último filme de Clint Eastwood é um dos mais belos filmes que me recordo de ter assistido em muito tempo. Clint superou, em sensibilidade, seus filmes anteriores: “Menina de Ouro e Gran Torino”. Tenho a sensação de que ele está procurando, aos 80 anos, se reconciliar com a sua própria história. O roteiro de “Além da Vida” permite algumas reflexões: atenho-me, especialmente, à bonita abordagem que o filme faz do tema de que somos todos UM e que, portanto, estamos interligados e influenciamos uns aos outros, não importa a distancia, idade, gênero e cultural. A outra questão está relacionada ao nosso  Propósito de Vida, esta força interior, que quando se manifesta nos encaminha para a direção mais improvável mas que ao final demonstrar-se a melhor para nós.