Sobre o Deboche, o Debochador e o “Debochado”

Danos MoraisConsulto o Aurélio e leio que deboche é o ato de zombar, escarnecer e desafiar com zombaria alguém. O autor do deboche é o debochador. Como não há uma palavra, pelo menos no Aurélio, para definir quem sofre a ação do debochador, vou usar “debochado” com esta finalidade, ainda que assim o fazendo, possa suscitar alguma confusão porque, quando se diz que “aquele cara é um debochado” significa, normalmente, que ele debocha dos outros (e, não, que sofre o deboche).

Não há quem não tenha presenciado, ou mesmo vivido, uma situação de deboche na vida. O contexto pode mudar, assim como os participantes, mas seja lá qual for o cenário, haverá sempre pontos coincidentes em todas as situações. Então vamos a eles.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o deboche é um comportamento passivo-agressivo, já que se disfarça atrás de um tom jocoso, de uma gozação inocente. Mas que ninguém se iluda: o debochador quer mesmo é atacar o “debochado”. O deboche se desenvolve numa área cinzenta, que é a dúvida e a incerteza – “ele está falando sério ou está brincando?”. Esta falta de clareza é a grande arma do debochador para atacar de forma segura. Mas para que sua estratégia dê certo é necessário ter platéia para sua apresentação e principalmente, para protegê-lo de um eventual revide do “debochado”. Por esta razão o deboche dificilmente acontece a dois, e se acontecer não será deboche…

O “debochado” sente, ou até mesmo sabe, que está sendo atacado, mas a dissimulação do debochador o deixa confuso sem saber como proceder e até mesmo paralisado. Como responder? pensa ele: “Se revido, corro o risco de passar por grosseiro e ignorante, se me calar, é como aceitar a provocação deste cretino…” Claro que algumas vezes o “debochado” encontra uma forma de revidar com elegância, mas na maioria das vezes não é o que acontece. Ou a resposta sai atravessada ou ele se cala. Em qualquer uma destas possibilidades o que fica, é a raiva reprimida fermentando internamente.

É no ambiente corporativo que o deboche ocorre com mais freqüência. A crítica, o ataque disfarçado em provocação inocente e bem humorada, é dirigida contra opositores e desafetos. Nas empresas, o debochador se sente mais seguro para debochar, protegido que está pela crença generalizada de que “perder a cabeça” é sinal de falta de controle emocional, algo inadmissível e que depõe, negativamente, contra qualquer executivo. É exatamente esta crença que paralisa o “debochado”, temeroso que uma reação sua possa ser interpretada como “destempero” ou falta de equilíbrio.

Então qual a solução? Bem, já que o que está em curso durante o deboche, é um ataque ainda que velado, mas subentendido, a saída está em torná-lo claro, explícito, escancarado para todos. Como? O “debochado” deve, simplesmente, dizer ao debochador como se sente com a atitude dele; com a falta de clareza, com a dissimulação, em outras palavras – peça esclarecimento sobre as intenções do debochador, o que ele está realmente querendo dizer. Esta atitude tende a desarmar o debochador, que é pego na sua estratégia. A verdade, sempre, é o melhor remédio contra a dissimulação, contra a confusão e os maus entendidos. É uma arma infalível.

Reconhecer que se sente confuso com a atitude de alguém é prova de coragem, sinceridade, e honestidade consigo mesmo, e para com os outros. É mostrar integridade e não significa, em absoluto, fraqueza ou falta de equilíbrio emocional. Muito ao contrário.

Ao ver sua estratégia desmascarada restará ao debochador reconhecer sua atitude passivo-agressiva, se é que já não sabia, e escolher mudar conscientemente. E ao mudar, ganham os relacionamentos, beneficiados por um dialogo mais verdadeiro e objetivo.

admin

2 Comments

  1. Ricardo,

    gostei muito do seu texto, bem abordado e explicitado e, principalmente, uma excelente dica para melhorar as relações e revelar o uso disfarçado do poder sobre os outros.

  2. Ricardo,

    Muito interessante este texto. Vivi uma situação parecida recentemente na qual um diretor-debochador fez um comentário sobre o trabalho da minha área em frente a um grupo. Optei por fazer uma reclamação formal ao meu superior, dizendo que não gostei do comportamento dele e muito menos das pessoas presentes que abaixaram a cabeça com um sorriso amarelo. A reação do meu superior e dos outros foi: “ele é assim mesmo, brincalhão”.

    O interessante é que depois que me posicionei o debochador passou a me tratar de forma mais cordial, foi como se eu tivesse descoberto um segredo dele. Ainda que hoje o ambiente corporativo nos estimule a camuflar os sentimentos acredito que devamos ser autênticos, únicos e só assim, mais felizes.

    Parabéns pelo espaço.

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