Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”.
Fernando Pessoa
A cultura prevalecente em nossa sociedade sempre associou a figura do homem de sucesso e mais recentemente também a da mulher, às suas realizações, conquistas, capacidade de acumular bens materiais, sua posição social, seu poder de influenciar outras pessoas e, conseqüentemente, o rumo dos acontecimentos, e também a outros atributos, tais como elegância, beleza física, rapidez de raciocínio, sociabilidade, eloqüência e assim por diante. Claro que a lista pode variar conforme o caso, saindo um atributo e entrando outro, mas não mudando muito, em essência.
Esta imagem coletiva do que é ser uma pessoa vencedora, nos foi incutida, desde muito cedo, pelos nossos pais, professores, outras figuras próximas e a própria mídia (tv, rádio, livros, cinema), sem que nos déssemos conta disso. Comentários sobre pessoas de sucesso eram feitos nas conversas em família, na mesa do jantar, entre amigos, até como forma de nos estimular e motivar pois, afinal, que pai ou mãe não quer que o filho tenha sucesso? Os pais almejam o sucesso dos filhos por uma questão de amor sem dúvida, mas também para eles próprios se realizarem no papel de pais.
A questão que coloco nem está tão relacionada com a questão da realização. Aliás, não tenho nada contra o fazer, o conquistar, obter resultados positivos, crescer profissionalmente, ser bem sucedido enfim. Eu mesmo, por toda vida, agi exatamente desta forma, trabalhei duro, me envolvi com trabalhos comunitários, fui um pai provedor, enfim um bom exemplo do “fazedor”. Portanto, e de novo, nada contra a realização e o reconhecimento decorrente, pois ambos são um poderosíssimo combustível para alavancar nossa auto-estima, e isto é bom, claro!
Mas a questão que quero tratar aqui é exatamente o contrário: e se não realizar, se não conquistar, e se não ganhar, se não for reconhecido, isso significa que não tenho valor, não sou nada? Ou em outras palavras, minha auto-estima depende única e exclusivamente das minhas conquistas e do reconhecimento externo? Não, definitivamente não, embora seja o que acontece à grande maioria das pessoas diante de um insucesso ou da falta de reconhecimento. E porque isto acontece, porque reagimos assim?
Voltando ao início, em primeiro lugar por que nos ensinaram que era importante ter sucesso; em segundo lugar, por que aceitamos isso sem questionamentos, (aliás, qual criança questionaria um adulto?) e em terceiro lugar e como conseqüência das anteriores, por que associamos nosso valor pessoal, exageradamente, às nossas conquistas, realizações, bens materiais, títulos, posição social etc.
- “Ora, mas não sou eu quem faz?” Alguém perguntará.
- Sim, mas eu sou muito mais do que esse fazedor, muito maior do que minhas conquistas e obras. Tanto isto é verdade que, mesmo que eu não faça nada, não conquiste coisíssima alguma, ainda assim, continuo sendo digno de viver, de existir. Ou ainda, quantas pessoas tiveram “sucesso” à custa de atitudes reprováveis, criminosas ate?
Então a questão não é apenas fazer, mas sim, a forma e a finalidade pela qual se faz. O que não tem nada a ver com meios, ferramentas ou processo, mas sim com a intenção. A Intenção deve estar relacionada com ética, com valores e princípios, ou seja, com a Consciência, que engloba tudo isso. Ser Consciente nada mais é do que expressar sentimentos elevados de cooperação, respeito, harmonia, justiça, fraternidade, reverência à toda forma de vida, em cada ação, atitude, gesto, palavra, realização. É expressar amor em todos os deveres e fazeres…
Quando o foco da minha ação deixa de estar centrado, unicamente, em mim mesmo, mas passa a incluir todos os interessados, então o reconhecimento externo torna-se desnecessário ou ao menos, secundário. O reconhecimento de ter feito bem o que é bom, vem de dentro, é interior, tem supremacia, é o que me nutre e motiva.
Posso errar e cometer equívocos, não realizar o que desejo, fracassar. Mas nada disso tem o poder de me por para baixo, me diminuir, me anular, apenas mostra que ainda não estou pronto, que há algo a ser aprendido e aperfeiçoado. Neste ponto eu me respeito, reconheço o fato de estar em processo, em desenvolvimento, em evolução.
Neste momento eu sei que EU SOU!!!

