Com a palavra… O economista

Entrevista para a Revista Circuito

pauta – Cláudia Ribeiro

 

crise.6Em momentos de crise, muitas são as opiniões e dúvidas. Para uns o mundo está a um passo da catástrofe total. Para outros, tudo é passageiro. Sobre esse assunto, conversamos com Ricardo Porto, economista, palestrante e condutor de seminários em temas ligados ao auto conhecimento, comportamento, espiritualidade e ética nos negócios. Realista, acredita na forte desaceleração da economia mas também aposta na criatividade e na força do trabalho. Crise, empregabilidade, atitude ética, oportunidade e currículo são alguns dos temas abordados nesta rápida entrevista.

Com a crise financeira, como vê o ano de 2009?

A turbulência atual tem sua origem numa crise de capital, ocasionada pela derrocada do “sub prime” nos EUA. O que surpreende é a rapidez com que esta crise financeira se propalou para a economia real, a que produz, cria empregos, paga salários e gera consumo.
No Brasil ainda não sentimos os efeitos de forma mais intensa porque a economia estava bastante aquecida. Mas, em 2009, vamos sentir mais esta desaceleração. A dúvida está apenas na sua intensidade e duração. Não se trata de pessimismo. É melhor enfrentar a realidade tal como se apresenta, e trabalhar e usar a criatividade. Senão o susto será maior.

Este primeiro trimestre será mesmo cheio de más notícias no ramo de empregos?

As empresas aproveitaram o final de ano para darem férias coletivas, como já faziam habitualmente. Mas, desta vez, com uma preocupação em reduzir despesas e custos e de ganhar tempo para avaliar os próximos passos. Seguramente haverá um volume maior de dispensas. Tanto é assim que muitos sindicatos já negociam benefícios e direitos em troca da estabilidade do emprego.

Com tantas demissões anunciadas, as pessoas devem ficar apreensivas?

O medo não é bom conselheiro. As pessoas devem ficar atentas e se prevenir, planejando o orçamento doméstico, cortando despesas supérfluas, cuidando dos desperdícios. É o momento de cuidado, responsabilidade, mas, não de medo. Antes, confiar e aproveitar as lições que esta turbulência nos oferece. O mundo não vai acabar.

Que áreas serão mais afetadas?

Como os bancos sentem-se inseguros para continuar a emprestar, a crise atinge mais os segmentos que necessitam de financiamento para concretizar suas vendas e operações, como o setor automotivo, imobiliário e os ligados à exportação e importação.

Como deve se comportar um funcionário para evitar a demissão?

É curioso como nos preocupamos com as ameaças, apenas quando elas estão próximas. É humano. A empregabilidade, tanto no sentido de preservar um emprego quanto para obter outro, deve ser uma preocupação permanente de todo profissional. Como conseguir? Mantendo-se atualizado, bem informado, investindo no seu auto desenvolvimento. Mas também tendo um comportamento profissional, comprometido e participativo, cuidando dos relacionamentos, tanto com superiores, colegas e subordinados, quanto com clientes, fornecedores, prestadores de serviços. Esta atitude deve ser cultivada e desenvolvida sempre. Não dá para querer resolver desavenças antigas com um chefe, só quando a coisa fica preta… é provável que não dê mais tempo! (O budismo ensina que não adianta se preocupar com o momento da morte, mas sim, como se viveu).

Como se comportar na hora de negociar um emprego?

Sem medo, sem se submeter, sem se desvalorizar. O que quer dizer não aceitar qualquer oferta, ou trabalhar numa empresa cujos valores não condigam com os seus próprios. Até porque, ao aceitar um “subemprego”, seja em termos salariais ou de responsabilidades, só terá efeito negativo na auto-estima e, em médio prazo, não vai funcionar. Mas, também não se pode querer, em época de pouca oferta, aumentar o salário.

E na hora de procurar um novo emprego?

O ponto de partida é saber o que se quer fazer e aonde. Na minha atividade, aconselhando executivos, percebo as pessoas confusas e em dúvida sobre este ponto. Mesmo profissionais experientes se sentem perdidos num momento de transição. Quando se tem clareza sobre o que se quer, tudo fica mais fácil. Transição de carreira exige preparação, paciência e uma atitude confiante. Por preparação entenda-se, estar atualizado sobre o momento, sua área de atuação e especialidade, como também sobre a empresa aonde se concorre a uma posição.
Ter uma atitude confiante significa estar calmo, seguro e certo do que a posição exige e das suas próprias qualidades e competências, sem tentar aparentar conhecimentos que não tem. A verdade deve prevalecer, sempre. Não há contra indicação para a ética.

Como aproveitar um momento de crise para mostrar novas idéias para a empresa?

Esta deve ser uma preocupação constante de todo profissional. Mas, em momentos de crise, uma solução criativa e que funcione será bem avaliada. É importante perceber que aonde há crise há oportunidade. Melhorias de processo, redução de custos, renegociação de contratos enfim, há uma enorme gama de possibilidades. Idéias novas devem ser realistas e condizentes com a atividade da empresa e com os valores corporativos e pessoais.

O que é melhor: pulverizar seu currículo por todos os cantos ou enviar para poucas pessoas “especiais”?

Não há qualquer efeito prático em “pulverizar” o currículo. É melhor definir a empresa e a pessoa. Em princípio, é sempre melhor encaminhar para o “requisitante potencial”, do que para o RH. O “requisitante potencial” é, por exemplo, o Diretor de Marketing, se eu for um profissional desta área. Procure estar informado sobre as necessidades de pessoal das empresas. Os sites normalmente divulgam as vagas disponíveis e disponibilizam campos para o cadastramento ”on line” do CV. O “networking”, em épocas de transição de carreira, é fundamental. Basta lembrar que as mudanças de emprego, segundo estatísticas conhecidas, em 70% dos casos acontecem por indicação e não pela ação de anúncios ou de “headhunters”.

Lembre-se, o CV é peça fundamental. Deve ser bem feito, objetivo, com no máximo duas páginas e sem erros de português, mencionando o cargo desejado logo no início. Depois, as qualidades, experiências, conquistas e realizações; o histórico profissional, com nomes das empresas e cargos ocupados do mais recente ao mais antigo, assim como o histórico acadêmico. Não minta no conhecimento de idiomas. É comuníssimo a pessoa dizer que fala inglês, quando na verdade mal se comunica. Aí, na hora da entrevista é um vexame!

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