A TEMPERANÇA

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Anos atrás, o filósofo francês André Comte-Sponville escreveu um livro interessantíssimo sobre as  Virtudes, chamado: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes.

No livro, o autor afirma com sabedoria que precisamos conhecer e praticar as Virtudes, para “…  nos  tornarmos mais humanos, mais fortes, mais doces e, principalmente, mestres de nós mesmos…”

Entre as 18 Virtudes descritas e comentadas no livro uma, em particular, chamou minha atenção  até  porque, sinceramente, não conhecia seu significado – A Temperança.

Para minha sorte, felicidade, e esclarecimento, uma querida amiga minha, CARLA RUSSO, fez uma  excelente síntese desta Virtude, a partir do livro de André Sponville, que agora divido com todos.

 

A TEMPERANÇA

Não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar o menos possível. Isso não seria virtude, mas  tristeza, não temperança, mas ascetismo, não moderação mas impotência. Spinoza tão bem diz o essencial: “Certamente apenas uma feroz e triste superstição proíbe ter prazeres. Com efeito, o que é mais conveniente para aplacar a fome e a sede do que banir a melancolia? Esta a minha regra, esta a minha convicção. Nenhuma divindade, ninguém, a não ser um invejoso, pode ter prazer com a minha impotência e a minha dor, ninguém toma por virtude nossas lágrimas, nossos soluços, nosso temor e outros sinais de impotência interior. Ao contrário, quanto maior a alegria que nos afeta, quanto maior a perfeição à qual chegamos, mais é necessário participar da natureza divina. Portanto, é próprio de um homem sábio usar as coisas e ter nisso o maior prazer possível (sem chegar ao fastio, o que não é mais ter prazer).” A temperança situa-se quase toda nesse parêntese. É o contrário do fastio, ou o que leva a ele; não se trata de desfrutar menos, mas de desfrutar melhor.

A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. “É próprio de um homem sábio, mandar servir em sua refeição e para a reparação de suas forças alimentos e bebidas agradáveis ingeridos em quantidade moderada, como também perfumes, o adorno das plantas verdejantes, os adereços, a música, os jogos que exercitam o corpo, os espetáculos e outras coisas da mesma sorte, de que cada um pode fazer uso sem prejuízo para o outro.”

A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade. Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber, quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres, porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil? Claro que não. É possível? Nem sempre, nem para qualquer um. É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência: ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico. Que infelicidade suportar seu corpo! Que felicidade desfrutá-lo e exercê-lo!

A temperança é um meio para a independência, assim como esta é um meio para a felicidade. Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento.

A temperança – como a prudência e como todas as virtudes, pertence, talvez, à arte de desfrutar; é um trabalho do desejo sobre si mesmo. Ela não visa superar nossos limites, mas respeitá-los. Pobre Don Juan, que necessita de tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que precisa comer tanto!

Mas quem sabe se contentar com o necessário? Quem sabe apreciar o supérfluo apenas quando este se apresenta? Somente o sábio, talvez. A temperança intensifica seu prazer, quando o prazer está presente, e faz as vezes deste, quando não está. Que prazer estar vivo! Que prazer não carecer de nada! Que prazer ser senhor de seus prazeres! O sábio epicurista pratica a cultura intensiva – em vez de extensiva – de suas volúpias. O melhor, não o mais, é o que o atrai e que basta à sua felicidade. Ele vive com o coração “contente de pouco”. Aquele a quem a vida basta, de que poderia carecer?

São Francisco de Assis redescobrirá esse segredo, talvez, de uma pobreza feliz. Mas a lição vale, sobretudo, para nossas sociedades de abundância, nas quais se morre e se sofre com maior frequência por intemperança do que por fome ou ascetismo. A temperança tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também, os mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar. Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los, mas no máximo, e tanto quanto possível, controlá-los, de regrá-los, de mantê-los em equilíbrio, em harmonia ou em paz.

A temperança é uma regulação voluntária da pulsão de vida, uma afirmação sadia de nosso poder de existir, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites.

A temperança não é um sentimento, é um poder, isto é, uma virtude.

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Os ensinamentos sobre liderança de Churchill

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Li, recentemente, a fascinante biografia[1] de um dos maiores nomes do século XX – Sir Winston  Leonard Spencer Churchill ou simplesmente, Churchill –  escrita, em pouco mais de 150 páginas,  pelo laureado historiador inglês, Paul Johnson.

Logo de início, Johnson relata o encontro que teve, aos 16 anos, com Churchill, ocasião em que  lhe  perguntou: “Mr. Churchill, sir, a que o senhor atribui o seu sucesso na vida?”. Sem pausa ou  hesitação, respondeu Churchill: “Preservação de energia. Nunca ficar de pé quando pode sentar e  nunca sentar quando pode deitar”…

Este diálogo, descrito no livro, ilustra bem como Paul Johnson trata seu mítico biografado: de  forma direta, simples, sem minimizar seus erros e nem tão pouco idealizar seus acertos que por  sinal, foram em muito maior número. Em resumo: biografou o homem na sua humanidade,  falibilidade, genialidade, sensibilidade e crueza. É exatamente isto que dá graça, prende a atenção  e, principalmente, dá credibilidade aos fatos narrados e descritos no livro, que cobre os 90 anos  vividos por  este gigante do século passado, com especial destaque para os anos da 1ª e 2ª  guerras mundiais bem como, o período intermediário entre ambas.

A mim, em particular, causou grande impacto as 5 lições sobre Liderança que, segundo Johnson,  podem ser aprendidas da biografia de Churchill. São elas:

1ª Lição: Sempre pensar grande! Ter consciência das suas falhas e fragilidades, mas continuar pensando grande, sem se abater e procurar superar as deficiências. Fortalecer-se naquilo aonde já se é bom e buscar, permanentemente, a excelência pelo prazer de fazer bem feito!

2ª Lição: Nada substitui o trabalho árduo! Ainda que possa parecer uma contradição diante da resposta que deu a Paul Johnson, Churchill sempre trabalhou muito: em média, 16 horas por dia. Costumava, é verdade, trabalhar deitado na sua cama, ditando memorandos, falando ao telefone, uma particularidade sua. Soube equilibrar com maestria o trabalho intenso e o lazer criativo e restaurador. Talvez seja esta a razão que lhe permitiu colocar tanta energia, intensidade e concentração no seu trabalho.

3ª Lição: Superar a frustração! Talvez esta seja a lição mais importante e alguns poderão chamá-la de Resiliência. O fato é que Churchill, ao longo da carreira, sofreu inúmeros reveses, derrotas, crises pessoais, doenças, impopularidade e críticas severas, mas nada disto o abateu irremediavelmente. Sua capacidade de recuperação era impressionante. “Tinha coragem, a mais importante das virtudes, e sua acompanhante, a fortidão!”, no dizer de Paul Johnson.

4ª Lição: Não perca tempo com mesquinharias! Churchill não dispendia nem tempo nem energia emocional com aspectos mesquinhos da vida, tais como: recriminar e culpabilizar terceiros; agir com maldade ou vingativamente; disseminar boatos e maledicência ou realizar manobras sujas. Nada é mais desgastante do que o ódio e a maldade perturba o julgamento. Churchill gostava de perdoar e era um conciliador natural. Nada lhe dava mais prazer do que substituir a inimizade por amizade.

5ª Lição: Sinta alegria pela vida! A alegria expulsa o enfado, o desespero, a rabugentice, a mágoa e a dor. Ela aproxima as pessoas e fortalece os relacionamentos. Churchill relacionava-se muito bem com todos que trabalhavam para ele, independentemente do nível hierárquico, e além do mais, foi querido pelo povo!

Estas lições podem, à primeira vista, parecer praticáveis apenas por pessoas especiais, do porte de Churchill, Ghandi, F.D. Roosevelt ou outro grande nome da História, mas não é bem assim. Qualquer uma delas pode ser colocada em prática a qualquer momento, por qualquer um de nós, pois não dependem de conhecimento técnico, instrução, cultura, nível social ou bens materiais mas,  apenas, da nossa vontade de remover as causas interiores que nos impedem de expressar nossas qualidades inatas.

Não se pode querer ser líder dos outros, antes de nos tornarmos líderes de nós mesmos, e o caminho para tal está no autoconhecimento, na auto responsabilidade, na auto aceitação e finalmente, na autotransformação.


[1] Churchill,  Paul Johnson, Editora Nova Fronteira, 2010

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Renascimento

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Ainda, recentemente, fiz uma viagem ao interior da Irlanda e  Inglaterra, aonde tive a oportunidade de visitar antigos locais da cultura Celta e até mesmo, assentamentos de povos do período Neolítico, ou seja, datados entre 3000 a 3500 AC

Cidades como Silbury, Avebury e Glastonbury aonde,  supostamente, teria existido a mítica ilha de Avalon, além  toda região de Cornwall (Cornuália), têm ainda, fortes  vestígios da passagem do povo Celta e, conseqüentemente, de  toda a tradição ligada ao culto da Deusa, aos ritos druídicos  dedicados aos elementos da natureza e também, às lendas  relacionadas ao Ciclo Arthuriano, com todo seu simbologismo  mágico, como é encontrado nos relatos sobre o Santo Graal e  da espada Excalibur; Merlin e Morgana; Lancelot e Mordred,  e, naturalmente, sobre o próprio rei Arthur e sua rainha  Guinevere.

Os próprios ingleses, à despeito do seu apregoado ceticismo, consideram estes lugares como sendo os mais sagrados da Inglaterra, locais aonde as dimensões se tocam e os portais se abrem para que possamos fazer nossas conexões…

Lenda, fantasia, sonho, realidade quem pode garantir? Eu, da minha parte, acredito apenas no que vivo e experimento e que, de alguma forma, é comprovado pelos meus sentimentos. Quando esta combinação ocorre, tenho a experiência do insight, e sei que o que percebo é verdade e, portanto, posso sustentar minha opinião com confiança.

ricardo na pedra=)Pois bem, num destes dias, de olhos fechados, sentado e encostado numa pedra que com outras 18, forma um círculo perfeito ( Tregeseal Stone Circle) e que estão assim dispostas desde tempos imemoriais, escuto com clareza na minha mente: “Renascer é assumir uma nova perspectiva para a vida. É questionar o passado, as formas antigas de pensar, de sentir, de falar, atuar e reagir. É se perguntar: como posso ser diferente aqui? Como posso testar uma forma nova fazer? Há uma perspectiva diferente para entender esta situação? Este relacionamento terá uma chance, se rever minhas crenças, certezas e “verdades”? Como posso reagir de forma a criar união, entendimento e cooperação? Como posso ser mais flexível e fluir com a vida de uma forma mais leve e gentil sem que isto signifique me tornar indiferente, indolente e também sem alterar meus valores essenciais? Como posso permanecer aferrado aos modelos antigos se tudo muda, se modifica e se transforma, permanentemente? Não estou, de fato, defasado e desatualizado?”

Tive uma Mestra que afirmava que “O novo é o novo, e não guarda qualquer relação com o velho!” Após a minha experiência em Tregeseal, sinto que a frase da minha Mestra tem um novo e mais profundo significado para mim.

Renascer é dar uma chance para este Novo, e eu posso fazer isto a cada manhã, a cada dia, a cada momento. Basta permanecer alerta e atento, e antes de reagir automaticamente, dar uma pausa, respirar e fazer uma escolha diferente, nova. O processo é por Tentativa e Erro, até que se torne natural. É assim que me renovo, transformo, renasço e afasto a morte para longe de mim…

Profissão e propósito pessoal

Matéria_Ricardo Porto_O Estado de São Paulo

Artigo publicado no O Estado de São Paulo de 24 de Abril, 2011, no Caderno de Empregos. Confira o artigo na íntegra abaixo:

 

O PROPÓSITO PESSOAL

 

A Escolha Profissional e o Propósito Pessoal

De uns tempos para cá, o tema Propósito Pessoal vem sendo cada vez mais discutido e estudado. Em conseqüência, aumentou também a discussão a respeito das Empresas com Propósito, prova disto é a freqüência com que este tema vem sendo tratado nas escolas de administração e pelas publicações especializadas, notadamente, no exterior.

Acredito que para se falar de Empresa com Propósito é preciso, primeiro, esclarecer a questão do Propósito Pessoal, por uma razão muito simples: as empresas, quase sempre, refletem a forma de pensar, agir e sentir das pessoas com mais poder de influir no seu rumo, nomeadamente, os acionistas, o conselho de administração, a diretoria executiva e os funcionários. Claro, que há outros agentes externos com poder de influir nos negócios, mas não necessariamente no Propósito.

Posto isto, vou conceituar Propósito Pessoal, e para facilitar, começo com o quê Propósito não é. Não é Objetivo ou Meta, pois estes são quantificáveis e tem um prazo de validade. Não é também a Visão nem a Missão, pois a primeira refere-se a uma aspiração a ser realizada no futuro, e a Missão, ao contrário da Visão, é concreta e indica uma forma de atuar. O Propósito não significa os Valores, embora todo Propósito tenha, intrinsecamente, o seu Valor, que é sempre ético e preservador da vida. E por fim, o Propósito não é a Intenção, que é a qualidade ou a “energia” que colocamos nas ações e atitudes e que levarão ou não, à realização do Propósito Pessoal.

Bem, agora, muitos devem estar se perguntando: afinal, o que é o Propósito Pessoal?

O Propósito Pessoal é um desígnio, um plano, um mapa único e exclusivo que só à pessoa pertence e diz respeito. É a certeza que dá direção, que fortalece a vontade, que motiva e compromete a ação. É uma verdade emocional que não nasce da mente, mas que sabemos está de acordo com nossas qualidades, competências, potencial e, portanto, faz todo sentido. Ser fiel ao Propósito Pessoal é a única forma de viver uma vida com significado e compensadora. Por exemplo: decidir por determinada ação, por confiar nos benefícios e melhorias que trará para a coletividade, ainda que os resultados ou o reconhecimento pessoal sejam incertos, é decidir com Propósito.

Descobrir nosso Propósito Pessoal pode não ser uma tarefa das mais fáceis, mas, certamente, é possível. Para esclarecer, é bom que se diga que o reconhecimento do Propósito não se dá com  um estalo ou um “insight”, mas através de um permanente processo de aprendizado e auto-conhecimento à partir das nossas experiências de vida, que contêm os desafios superados e os fracassos, alegrias e tristezas, acertos e erros. Se nos mantivermos atentos e alertas descobrimos e refinamos nosso Propósito no dia a dia.

Muitas vezes parece que estamos muito distantes do nosso Propósito Pessoal, enquanto pagamos contas, trabalhamos em algo que não nos motiva, temos relacionamentos superficiais, vivemos situações conflituosas e sentimentos de não preenchimento, vazio e frustração. Mas ainda que seja assim é preciso aceitar o fato de que estas situações podem ser oportunidades de aprendermos mais sobre nós mesmos, pois são parte do processo e, conseqüentemente, têm relação com nosso Propósito Pessoal.

Empresas com Propósito sabem que o lucro é importante e indispensável à sua continuidade, mas não o perseguem a qualquer custo. Levam em consideração, ao decidir, os interesses das partes envolvidas – acionistas, funcionários, clientes, fornecedores, financiadores, governo, comunidade e o meio ambiente. São éticas, seguem seus valores e pensam de forma sistêmica, conscientes das implicações e extensão que suas decisões podem ter.

Escolher trabalhar numa empresa cujo Propósito se harmoniza com o nosso próprio Propósito Pessoal, significa optar por ter uma atividade menos estressante, desgastante, e mais motivadora, recompensadora e com muito mais significado. Por isso é tão importante conhecer mais sobre a empresa, seus valores e cultura, antes de aceitar uma proposta, aparentemente, irrecusável.

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SOBRE CULPA E RESPONSABILIDADE

SOBRE CULPA E RESPONSABILIDADE

A culpa é conseqüência da nossa inconsciência. Que inconsciência?

A de não assumirmos a responsabilidade por nossos sentimentos, emoções, palavras, atitudes e até mesmo, pelos nossos pensamentos. Ao não nos responsabilizarmos, nos colocamos no papel da vítima indefesa, imatura e inconseqüente. Nestas ocasiões nos sentimos profundamente injustiçados e, passo seguinte, tratamos de encontrar um culpado pelos nossos infortúnios, frustrações e dor. Os culpados são os de sempre, claro: pais, filhos, cônjuge, irmãos, cunhados, chefes, colegas, amigos, vizinhos, políticos, Governo e, esgotadas as alternativas mais óbvias, o destino, o azar, o acaso e, última instância, DEUS!

Estar no papel da vítima significa que alguém assumiu a posição de algoz, carrasco, agressor, inimigo, etc. Bem, todos concordam que é humano sentir raiva, rancor, ódio mortal e nutrir desejos de vingança e revanche por quem nos tratou de forma tão cruel, traiçoeira, pérfida, injusta e imerecida. Acontece que nestas situações ninguém quer mostrar, abertamente, que tem tais sentimentos e que, portanto, acabam sendo  acobertados, camuflados, dissimulados ou totalmente reprimidos.

Temos uma tendência natural de buscar a harmonia, a integração, a união com outras pessoas, com a natureza, com o Tudo que há. É um anseio intenso que nasce do recôndito mais profundo do nosso Ser. É por esta razão que toda vez que nos desentendemos com alguém, vivemos um conflito, uma disputa, que nos leva a ter emoções negativas por esse alguém, acabamos por nos sentir vazios, oprimidos, com o “coração apertado”, e acreditamos que, de alguma forma, somos culpados.

Relacionamentos baseados na culpa, ou que embutem o sentimento do ter que  “pagar a dívida”, acabam por gerar, na parte que se sente devedora ou culpada, uma vaga necessidade de compensar a outra pessoa por algo que, definitivamente, não se tem consciência. As atitudes são forçadas, falsas, não têm flexibilidade, leveza, tornam-se uma obrigação, há o desejo de poupar a outra parte, agradá-la, retribuir, satisfazê-la por algo que não recebeu, mas que deveria ter recebido. Em contrapartida e curiosamente, quem recebe tanta “atenção” passa a se acreditar, de fato, devedora e merecedora de alguma coisa e se torna exigente, demandadora, e “escraviza” o outro, que aceita a situação como devida e “justa”. Em resumo: um relacionamento com pouca ou nenhuma chance de dar certo.

Os relacionamentos podem ser preservados, mantidos, resgatados, sempre que assumimos a nossa cota de responsabilidade pelo que causou o conflito ou o desentendimento, seja isto o descumprimento de uma obrigação, uma atitude equivocada ou a recusa de um sentimento. Claro que há sempre razões de ambas as partes e muitas vezes, a reclamação é exagerada e até mesmo injusta. Mas isto deve ser explicitado, conversado, esclarecido.

Aceitar e reconhecer que não poderíamos ter feito diferente por falta de conhecimento, por incapacidade física, ou até mesmo porque não percebemos corretamente o que acontecia, não aumenta a culpa, ao contrário, a diminui pela simples e boa razão de assumirmos, com honestidade e responsabilidade, algo no qual falhamos. É esta honestidade que abre as portas para o entendimento, que pode até demorar, mas que em dado momento ocorrerá.

Não somos perfeitos, mas devemos buscar a perfeição. Nosso propósito de vida é ampliar nossa consciência, e isto só pode acontecer na medida em que assumimos a responsabilidade por nossa vida. Quando admitimos honesta e corajosamente, nossa imperfeição, nossas falhas, nossos sentimentos negativos e destrutivos, criamos a possibilidade de transformar tudo que deve ser transformado.

A auto-responsabilidade, ao contrário da culpa, nos liberta do papel da vítima e do algoz, eleva a auto-estima, mas não nos desobriga do dever de melhorar!.